O Gauche


Parte I

- Pois é, o Eustáquio não agüentaria mais mesmo. Veja, o caixão está partindo, vamos!

Aposto que esse vai se apresentar para carregar o caixão, meu tio até gostaria, afinal, ele é amigo da família.

- E , vai ajudar a carregar uma das alças? Melhor apagar esse cigarro, olha o carro! Falei! Malditos, essa rua, esses taxistas, são todos folgados... é, São Paulo! Mas, você está bem?

Isso não é nada, nem aparece nessa barra escura da calça, sorte sua senão acompanharia o tio Eustáquio. É, terra da garoa com asfalto de má qualidade!

- Pois, realmente, mas eu adoro comer lanches assim, mesmo engordurados. Lembro-me de cada velório da família; tio Carlos, um Bauru com caracu morna as três da manhã; o , genro da tia Yolanda, meia dúzia de pastéis com cerveja geladinha na hora do almoço. Eu também prefiro os da madrugada, quero ser velado durante toda madrugada quando chegar minha hora, assim colaboro para memória familiar!

- Vamos, venha em meu carro, seremos os últimos. Eu sei onde será o velório. Será uma noite longa, vamos comprar cigarros no caminho.

 



Escrito por Fá às 22h23
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Carminha sabia desde sempre quem era, uma mulher de garra, sensibilidade à flor da pele sem, no entanto, perder o senso prático. Para quê gastar lágrimas e energias com o amor perdido, o atraso do marido ou o filho mais novo que insiste em namorar uma lambisgóia? Sim, sabia quem era, falava sempre quem era, mesmo quando não queria.

- Pois não é Graça! Aquelas flores do arranjo estavam h-o-r-r-í-v-e-i-s! Em nada combinavam com a festa.

- Ora, mas que é isso vocês duas. Eu é que jamais as convidaria para o casamento de qualquer um de meus filhos. Eu falo mesmo, vocês é que se atrevam a fazer comigo o que fazem com essa pobre da Hilda, tamanha cordialidade diante e depois isso! Assim falava Carminha, sem papas na língua, como gostava de dizer. Sincera demais, dizia ela, daí tanto sofrer por proferir a verdade a todo instante.

- E não fiquem com essas caras, eu prefiro ser assim a falar o que não penso, eu sou espontânea. Carminha encerrava assim seus comentários taxativos.

 

- Se ao menos ela tivesse me ouvido e usado cachepô, e olha que gastei um tempão ensinado como decorá-los! Disse Carminha após um longo silêncio, num suspiro enfadado.  

  



Escrito por Fá às 22h32
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